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O desafio de ser mulher

Semana passada fiz uma visita vapt vupt à uma amiga em Portugal, e por ter sido rápida e sem muito planejamento, tive que fazer boa parte do meu pouco turismo por conta própria, experiência essa que até então não tinha tido na vida.
Apesar de ter sido bem diferente e “auto conhecedora” (assunto para outro post) tive o desprazer de conviver com um sentimento muito comum às mulheres desde que o mundo é mundo: o medo.

Sou uma mulher que como muitas outras, adora se vestir de forma sensual. Inclusive, ficou sacramentado esse meu estilo quando fiz minha consultoria de imagem que quase que por completo meu estilo saiu como sexy, com uma pegada romântica e um pouco formal.
Mas por conta dessa minha pegada pro lado sexy muitas vezes me julguei e me contive para não ser “mal vista” perante os outros, principalmente pelos homens como um objeto ambulante que eles sentem que podem manipular e falar o que der na telha.

Então que nesses meus dias sozinha de turista senti na pele algo que não sentia de forma tão intensa a muito tempo.
Estava muito calor em Lisboa, e eu queria usar meu crop e shortinho que eu não usava a séculos por estar vivendo numa cidade muito fria, e quem me conhece, ou já teve oportunidade de ver algumas fotos (fotos essas que também submeto a um critério de sensualidade pelo mesmo motivo desse post) sabe que tenho várias tatuagens e que quando junta a roupa com as tattoos cria-se um contexto bem sensual, que obviamente, eu amo!
Sendo assim, lá fui eu visitar o Castelo de São Jorge, uma das atrações turísticas mais populosas de Lisboa, que pelo dia ensolarado e quente devia estar mais lotado que o normal.

E foi aí que tudo começou…

Tive que fazer um percurso andando para chegar ao castelo, de ruazinhas finas e bem ermas, onde ali já começou o famoso, mas não desejado, assédio.
Vários homens que se sentiram no direito de vir na minha direção e quase tentar falar no meu ouvido “queria saber onde essas tatuagens vão levar”; “muito gostosa hein?”; “why so sexy?”… desde os mais básicos até os mais baixos e esquisitos assédios que infelizmente já estamos acostumadas a ouvir. Até que já dentro do castelo, em uma área de rochas e pedras pertencentes a ruína da estrutura que achei muito bonita e um ponto interessante para tirar algumas fotos de mim mesma, do nada escuto um barulho na parte superior ao local que estava e vi dois caras, tirando fotos minhas sem minha permissão e falando coisas em alguma língua que eu não entendia, mas que claramente, pela postura e forma de se comunicarem não eram de um linguajar educado.
Fiquei tão assustada, tão chocada, que por uns segundos eu travei, mas quase que imediatamente recobrei meus sentidos, peguei minhas coisas e sai correndo, não sem antes ouvir eles gritando algumas gracinhas e ainda descendo em minha direção.
Corri por alguns minutos até a saída do castelo, a visita para mim tinha acabado ali, e acredito que dei a sorte da atração estar muito lotada para eles se importarem de continuar na minha cola.

Costumo evitar falar sobre assuntos com teor pesado aqui no blog, gosto de ter um conteúdo leve e interativo aos meus leitores daqui e seguidores do Instagram, mas isso me marcou tanto que senti que era o momento de me expressar.
Depois desse incidente, que também deixo claro que não parou por aí, porque até eu chegar a casa da minha amiga passei por aquelas mesmas ruazinhas de antes, parei para pensar em muita coisa.

Sempre tive problemas com meu corpo, desde muito nova, tive alguns distúrbios alimentares, sofri alguns bons anos na infância de bullying, e até hoje, apesar de ter melhorado muito a forma que me vejo, ainda tenho meus dias de dúvida e desespero por não ser “igual ao padrão imposto pela mídia”.
Gostaria de dizer que me sinto sempre bem, mas seria uma mentira bizarra diante de um contexto tão delicado que estou expondo e ao mesmo tempo contrariando tudo que venho prezando em manter nesse trabalho de blogueira.

Infelizmente cheguei a conclusão do quanto ainda me prendo aos padrões de beleza, que por mais que tenhamos uma luta mais exposta e mais definida na sociedade para mudanças, o padrão ainda resiste em quase todos os marketings que vemos por aí, e isso fez com que eu deixasse de postar muita foto e muito vídeo, com receio de ser julgada por um corpo que não tenho e que diariamente trabalho para entender que não devo e nem tenho que ter.
Entendi também que muito desse meu auto julgamento vem desse assédio que passamos diariamente. Vergonhosamente já me senti muito mal por ter achado que me vesti de forma “arrasadora” e não recebi nenhuma “cantada” naquele dia. Não é fácil aceitar que também fazemos parte desse distúrbio na sociedade.

Hoje já mais madura (mas nem tanto assim, rsrs), aprendi muito sobre me vestir para mim e não para os outros, o que me leva a falar de mais um ponto dentro desse contexto.

Eu GOSTO de ser sensual, eu AMO me vestir dessa forma e gostaria que as pessoas me vissem assim, mas não porque eu quero a opinião delas, apenas porque eu quero que elas me vejam como eu sou, não como um objeto, ou por ser vulgar, ou por querer chamar atenção de homens e todos esses preconceitos velados que temos por aí.

Também gosto de manter um estilo de vida saudável, me exercitar para perder alguns quilos e ME sentir bem comigo mesma, mas não to aqui para pregar nenhum peso e formato de corpo ideal para ninguém. Trabalho diariamente para que essa minha transformação visual saudável não seja completamente afetada pelos padrões de beleza impostos, porque seria ridículo eu dizer que não existe nenhuma influência, ainda tem, e nem afete quem me segue.

Acredito de verdade que consigo manter um equilíbrio e me preocupo sempre em não falar de emagrecimento nas minhas redes sociais como algo estético e sim como algo que tem a ver com a vida saudável e consequência dessa vida.

O que eu conclui disso tudo? Que vou me expor mais, provavelmente não pela roupa, ou abrindo mais espaço da minha vida nas redes sociais, mas sim postando mais daquilo que eu acho que seja condizente com quem eu sou e gosto, para ser mais eu do que alguém que a sociedade impõe que eu seja.

 

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Oi! Me chamo Caroline Daudt, nascida no interior do Rio de Janeiro, de coração inglês e atualmente morando na Escócia!
Formada em Administração, Consultoria de Imagem Estilo e Maquiagem Profissional e nas horas vagas aspirante a chef.
Casada, mãe de duas cachorrinhas idosas e madrasta de uma adolescente milennial.
Uma sonhadora incomum para um mundo comum.

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About Caroline Daudt

Oi! Me chamo Caroline Daudt, nascida no interior do Rio de Janeiro, de coração inglês e atualmente morando na Escócia! Formada em Administração, Consultoria de Imagem Estilo e Maquiagem Profissional e nas horas vagas aspirante a chef. Casada, mãe de duas cachorrinhas idosas e madrasta de uma adolescente milennial. Uma sonhadora incomum para um mundo comum.

Comments

  1. Ana Barros disse:

    Oi Carol,

    é horrível o assédio diario que passamos né? Os homens acham que estamos ali para agradar e nos tratam, na maioria das vezes, como objetos. Fiquei muito triste lendo o seu relato, porque vi que ainda existe muito machismo na sociedade. Mas você me pareceu uma mulher forte capaz de enfrentar tudo isso. E está certíssima, use o que quer, faça o que quer, somos livres.

    Os padrões que são impostos sobre a gente são horríveis também, temos que ser magra, bonitas, maquiadas, etcs. Eu tenho me dedicado a escrever sobre isso e dar as mulheres um motivo para desapegarem desses padrões, talvez você goste dessas matérias.

    Continue sendo você e tudo fica bem <3

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